10 março 2026 - 11:53
Um olhar sobre a Sunnah divina na batalha entre a verdade e a falsidade

Na tradição divina, a verdade é como água pura e metal refinado: permanece e traz benefício. A falsidade, porém, assemelha-se à espuma que surge sobre a torrente ou às impurezas dos metais, algo instável e destinado a desaparecer. O Alcorão, por meio de metáforas profundas e eloquentes, apresenta o destino inevitável da falsidade como o declínio e o desaparecimento, enquanto o fim da verdade é a permanência e a estabilidade. As tradições dos Ma'sumin também enfatizam essa realidade: embora a falsidade às vezes pareça poderosa, em sua essência ela está condenada à extinção e, com o surgimento da verdade, sua destruição torna-se inevitável.

Agência Internacional Ahl al-Bayt (A.S.) — ABNA Brasil: a Sunnah divina no confronto entre verdade e falsidade é um dos temas fundamentais explicados no Alcorão Sagrado e nas tradições dos Ma'sumin (a.s.). Deus, em Seu Livro, por meio de metáforas belas e expressivas, descreveu o destino final desses dois campos. De um lado está a verdade, firme como uma montanha e duradoura; do outro está a falsidade, semelhante à espuma sobre a água, passageira e destinada a desaparecer.

A Sunnah divina na manifestação da verdade e no desaparecimento da falsidade

A metáfora da água e da torrente

Deus Altíssimo declara na Surata ar-Ra'd uma das mais belas e profundas metáforas para explicar o destino da verdade e da falsidade:

(أَنزَلَ مِنَ السَّمَاءِ مَاءً فَسَالَتْ أَوْدِیَةٌ بِقَدَرِهَا فَاحْتَمَلَ السَّیْلُ زَبَدًا رَّابِیًا ۚ وَمِمَّا یُوقِدُونَ عَلَیْهِ فِی النَّارِ ابْتِغَاءَ حِلْیَةٍ أَوْ مَتَاعٍ زَبَدٌ مِّثْلُهُ ۚ کَذَٰلِکَ یَضْرِبُ اللَّهُ الْحَقَّ وَالْبَاطِلَ ۚ فَأَمَّا الزَّبَدُ فَیَذْهَبُ جُفَاءً ۖ وَأَمَّا مَا یَنفَعُ النَّاسَ فَیَمْکُثُ فِی الْأَرْضِ ۚ کَذَٰلِکَ یَضْرِبُ اللَّهُ الْأَمْثَالَ) [1]

Deus faz descer água do céu, e os vales correm conforme sua capacidade; a torrente então carrega uma espuma que sobe à superfície. E também daquilo que as pessoas fundem no fogo para fazer ornamentos ou utensílios surge espuma semelhante. Assim Deus exemplifica a verdade e a falsidade: quanto à espuma, ela desaparece; mas aquilo que beneficia as pessoas permanece na terra. Assim Deus apresenta as parábolas.

O exegeta Ibn Kathir, em seu comentário desta nobre passagem, apresenta duas imagens precisas para explicar a verdade e a falsidade. A primeira é a da água que desce do céu e corre pelos vales. Durante esse fluxo, aparecem espumas sobre a água que não possuem utilidade e logo desaparecem. Já a própria água, que é fonte de vida e benefício para as pessoas, permanece na terra.
A segunda imagem é a dos metais fundidos no fogo: nesse processo, as impurezas se separam em forma de escória e desaparecem, enquanto o metal puro e útil permanece.[2]

Ibn Abbas afirmou ao interpretar esse versículo que essa metáfora representa também o estado dos corações humanos diante da verdade. Cada coração recebe as realidades divinas conforme sua capacidade. A dúvida e a hesitação são como a espuma, destinadas a desaparecer, enquanto a certeza e a fé são como a água e o metal puro, que permanecem.

A chegada da verdade e o desaparecimento da falsidade

Deus afirma na Surata al-Isra uma lei clara e imutável:

(وَقُلْ جَاءَ الْحَقُّ وَزَهَقَ الْبَاطِلُ ۚ إِنَّ الْبَاطِلَ کَانَ زَهُوقًا) [3]

“E dize: a verdade chegou e a falsidade desapareceu; certamente a falsidade é destinada a desaparecer.”

Este versículo é uma das maiores boas-novas do Alcorão para os seguidores da verdade. A expressão “zahuqan” indica intensidade, mostrando que o desaparecimento da falsidade não é apenas um evento ocasional, mas parte da sua própria natureza. A falsidade, por sua essência, está sempre caminhando para o declínio.

Grandes comentaristas islâmicos interpretaram esse versículo também no contexto da conquista de Meca e da derrota da idolatria. Contudo, seu significado é universal e eterno: sempre que a verdade surge, a falsidade está destinada a desaparecer, assim como a escuridão não pode permanecer diante da luz.

As tradições dos Ma'sumin (a.s.) sobre a verdade e a falsidade

Nas fontes narrativas islâmicas existem numerosos hadiths do Profeta Muhammad (s.a.a.s.) e dos Ahl al-Bayt (a.s.) que explicam a natureza da verdade e da falsidade e a lei divina que governa seu confronto.

1. O hadith do Profeta sobre a divisão fundamental da existência

O Mensageiro de Deus disse:

“Ó pessoas! Existem apenas Deus e Satanás, a verdade e a falsidade, a orientação e o desvio, a retidão e a perdição.” [4]

2. Verdade e falsidade como dois caminhos

Imam Ali (a.s.) afirmou:

“Al-haqq é o caminho do Paraíso e al-batil é o caminho do Inferno, e em cada caminho há alguém que chama para ele.” [5]

3. A consequência de apoiar a falsidade

O mesmo Imam advertiu:

“Quem apoiar a falsidade terá cometido ظلم contra a verdade.” [6]

4. A distância entre a verdade e a falsidade

Em um famoso relato, Imam Ali (a.s.) disse:

“Entre a verdade e a falsidade há apenas quatro dedos.”

Quando perguntaram o significado, ele colocou os dedos entre o ouvido e o olho e disse:

“A falsidade é dizer: ‘ouvi dizer’; a verdade é dizer: ‘eu vi’.” [7]

Esse hadith enfatiza a importância do conhecimento certo e da percepção baseada na بصیرت.

5. A mistura entre verdade e falsidade no mundo

Em outro sermão, Imam Ali (a.s.) explicou o fenômeno das شبهات:

“Se a falsidade estivesse completamente separada da verdade, não permaneceria oculta para aqueles que buscam a realidade; e se a verdade estivesse totalmente livre da mistura da falsidade, as línguas dos opositores seriam silenciadas. Mas toma-se um pouco de uma e um pouco da outra.” [8]

6. O poder da verdade para destruir a falsidade

Ele também disse:

“Uma pequena quantidade de verdade pode destruir uma grande quantidade de falsidade, assim como uma pequena chama pode queimar muita lenha.” [9]

7. A lei divina da vitória da verdade

Imam Ja'far al-Sadiq (a.s.), com base no versículo:

(بَلْ نَقْذِفُ بِالْحَقِّ عَلَی الْباطِلِ فَیَدْمَغُهُ) [10]

disse:

“Não há falsidade que se levante diante da verdade sem que a verdade a vença.” [11]

Características da verdade e da falsidade segundo o Alcorão e o Hadith

Com base nesses versículos e narrativas, podemos identificar as seguintes características:

Características da verdade

  1. Permanência e estabilidade (فَیَمْکُثُ فِی الْأَرْضِ)
  2. Benefício para as pessoas (مَا یَنفَعُ النَّاسَ)
  3. Caminho para o Paraíso (طَریقُ الْجَنَّهِ)
  4. Poder de destruir a falsidade (یَدْفَعُ کَثیرَ الْباطِلِ)

Características da falsidade

  1. Instabilidade e desaparecimento (یَذْهَبُ جُفَاءً)
  2. Falta de utilidade real (زَبَدًا رَّابِیًا)
  3. Caminho para o Inferno (طَریقُ النّارِ)
  4. Destinada naturalmente ao desaparecimento (کانَ زَهُوقًا)

Portanto, a Sunnah divina na batalha entre a verdade e a falsidade é uma lei firme e imutável. O Alcorão, por meio das duas metáforas da água e da torrente e dos metais e suas impurezas, apresenta o destino inevitável da falsidade como o desaparecimento e o declínio, enquanto o destino da verdade é a permanência e a estabilidade.

As tradições dos Ma'sumin (a.s.) também confirmam essa realidade: embora a falsidade possa parecer poderosa e popular em determinados momentos, sua natureza é frágil e destinada ao desaparecimento.

O versículo nobre “Ja'a al-haqq wa zahaqa al-batil” é uma promessa para todos os crentes: no final, a verdade vencerá. A falsidade, ainda que se espalhe pelo mundo, um dia será erradicada. Essa Sunnah divina sempre foi fonte de esperança e firmeza para aqueles que caminham pela senda da verdade ao longo da história.


Notas

[1] Surata ar-Ra'd, 17
[2] Tafsir Ibn Kathir, comentário sobre ar-Ra'd 17
[3] Surata al-Isra, 81
[4] Al-Kafi, vol.2, p.16
[5] Nahj al-Sa'ada, vol.3, p.291
[6] Ghurar al-Hikam, hadith 6041
[7] Nahj al-Balagha, sermão 141
[8] Nahj al-Balagha, sermão 50
[9] Ghurar al-Hikam, hadith 6735
[10] Surata al-Anbiya, 18
[11] Al-Kafi, vol.8, p.242

Tags

Your Comment

You are replying to: .
captcha